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2010-03-18

Hoje o tema, relacionado ainda às marcas, é: será que provocação vende?


Antes de entrar no tema, aviso que no final deste post há alguns exemplos de "provoking ads" para vocês avaliarem.


Acho que todo mundo gosta de uma propaganda inspirada, algo polêmico - mesmo que muitas vezes o filme fique no limite do mau gosto (outras vezes são totalmente ofensivas mesmo). Mas será que isso é bom para as marcas? À parte do benefício imediato - todo mundo comentando, alto grau de lembrança - como este tipo de campanha afeta a imagem de uma marca no longo prazo?


Um dos grandes problemas desta escolha é que ela contém seu próprio fim - em outras palavras, quando todo mundo que ser provocador, para que a provocação se mantenha eficaz ela precisa se tornar excessiva.


Quem não se lembra da obsessão da marca Benetton em produzir, além de roupas coloridas, propagandas altamente impactantes (umas bem inspiradas, como as que denunciavam o racismo e outras tantas com o intuito puramente de chocar, como a do rapaz, soropositivo, com as feições similares a de Jesus Cristo).


Será que esta violência gráfica resultou em aumento de vendas? De acordo com a própria Benetton, este tipo de estratégia faz com que a circulação nas lojas aumente, no entanto,mais gente no ponto de venda não se traduz necessariamente em compras. Na realidade, recentemente a Associação dos Franqueados Alemães da Benetton processou o dono da marca, Luciano Benetton, por considerar que aquelas campanhas afetaram suas vendas e lhes causaram prejuízos.

Claro que uma campanha dessas não passa despercebida, e os números comprovam - a imagem do padre e da freira se beijando (aliás uma das que mais gosto) teve um reconhecimento de marca 48% maior do que se espera obter em um anúncio padrão. No entanto, quando perguntados sobre sua intenção de comprar um artigo Benetton, mais de um terço dos consumidores afirmam se divertir muito com a foto, mas confessam que ela não os estimula a comprar o produto (de fato nem se vê o produto - toda a campanha soa mais como um manifesto da marca do que como uma publicidade para tornar suas roupas e acessórios irresistíveis).

Mesmo se considerarmos a natureza "política" da comunicação da Benetton, é possível dizer que, ao mesmo tempo que ela encontra admiradores, e seu impacto eleva os índices de recall às alturas, é fato que a estratégia também se depara, na mesma proporção, com uma forte rejeição.

E vale lembrar o ponto que defendemos no início do post - a polêmica, para permanecer polêmica, tem que subir sempre um degrau, senão a gente se acostuma e passa a ver o anúncio como banal.

Este fenômeno aconeceu com a marca sobre a qual estamos falando: em 1989 temos uma negra amamentando um bebê branco (super bonita!), em 1991 sai a foto do beijo dos religiosos católicos (já uma escalada na polêmica), em 92 é a vez do anúncio do rapaz com HIV morrendo em sua cama, em 1993 temos esta aí em cima, com o "HIV positive" (com a evidente intenção de chocar), em 1994 a vilolência gráfica atinge outro nível, com a imagem do uniforme ensanguentado do soldado bósnio, e a última chocante de que tenho notícia vem de 2003 e está aí do lado direito.

De lá para cá, o que se vê são campanhas muito coloridas e bem mais tranquilas - ao que tudo indica a Benetton resolveu abandonar sua filisofia do "falem mal mas falem de mim". A marca ainda preserva um tom de manifesto, mas bem mais brando. Vejam só:





De acordo com os autores do livro Pró-Logo (a inspiração para os posts desta semana), estas práticas de "provoking ads" tendem a confinar as marcas em um círculo vicioso e elas necessariamente perdem a longo prazo. O sistema só funciona se a provocação aumentar constantemente. Assim, a provocação na propaganda dá certo uma ou duas vezes, mas deixa de dar resultados quando a elevação do tom se torna impossível.

Já falamos aqui sobre a importância da consistência para a construção da imagem de marca - se sua única aposta são as polêmicas, depois que todos os tabus forem transgredidos o que restará?

É isso gente.
E amanhã tem mais...

Deixo aqui alguns anúncios polêmicos que encontrei. Não censurei nada!



2010-03-03

A Devassa Paris Hilton II



O assunto da proibição do comercial da cerveja continua dando o que falar! Escrevo aqui apenas algumas linhas para complementar o post anterior. A coluna do Fernando de Barros e Silva (Folha de SP, 03/03) é muito oportuna ao lembrar: em que aspecto a "Devassa Paris Hilton" é mais sexista e desrespeitosa às mulheres do que a "Boa" Juliana Paes? Será que é porque a primeira é americana, loira, herdeira e milionária (combinação que no Brasil soa como palavrão!)?

A leitora Cabral de Barros deixou um comentário alertando-me para o fato de que a suspensão da campanha funcionou como um "golpe publicitário" e que só trouxe benefícios para a marca da cerveja. Claro que isso é verdade, como comprova o antepenúltimo parágrafo do post anterior (quase todo mundo ficou a favor da cerveja), mas o que realmente me incomoda é o fato de um órgão governamental ter autoridade para tirar o filme do ar, alegando que nós consumidores (especialmente as mulheres) estamos sendo desrespeitados. Como me incomoda esta postura paternalista vinda de alguém que não é meu pai!! Isso para mim só tem um nome: CENSURA. E censura do tipo Hugo Chávez (pé de pato, mangalô, três vezes!!!). Credo...

Proibir a Devassa Paris Hilton? Não concordo...




Ontem li na Folha de São Paulo a matéria do João Pereira Coutinho sobre a proibição da propaganda da cerveja Devassa com sua modelo Paris Hilton. Devo dizer que concordo com a opinião do jornalista: censurar a vulgaridade, a cafonice e a "jequice" de Paris Hilton, pessoa física, pode ser considerado um gesto honroso. Agora, mandar tirar o filme da Devassa do ar, aí realmente é inadmissível!

Claro que a propaganda é de mau gosto, óbvia (mulher loira vendendo cerveja - quanta originaldidade!) e boba, mas não entendo a lógica em proibir sua veiculação! Será que não cabe a nós, cidadãos e telespectadores consumir as marcas com quais nos identificamos e vetar tudo aquilo que nos parece inadequado?

Sim, porque eu jamais compraria uma cerveja de nome Devassa (acho o conceito muito machista!), muito menos com uma campanha publicitária como esta, estrelando a tal celebridade...mas, também, confesso que não gosto de cerveja.



Quem começou a gritaria contra a peça publicitária foi a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres...alguém sabia da existência desta secretaria? Só o nome já me soa antipático. Políticas para Mulheres? Tenha dó, né? Estamos em 2010!! Aí apareceram alguns consumidores chocados com a indecência - daí para a proibição foi um pulo! O Conselho de Autorregulamentação Publicitária abriu então três processos pela "imoralidade do comercial"

Sabe o que mais me causa estranheza? Qual o motivo de tanto pudor? Todos estamos acostumados a propagandas de cerveja, em que mulheres seminuas aparecem na praia, bebendo "barris de cerveja", como diz João Pereira Coutinho. Por que então o horror diante de uma só mulher usando um vestidinho preto em uma janela, com uma lata de cerveja na mão? Parece que o argumento é que a imagem degrada as mulheres. Alguma de vocês leitoras se sentiram degradadas pela Paris passando a lata de Devassa pelo corpo? Eu não...

Já o relator do processo de suspensão do comercial se sentiu de tal maneira aviltado pela sensualidade exagerada da modelo que decidiu, de maneira mais rápida do que a habitual, proibir que a Devassa continuasse a divulgar tamanha imoralidade. Será que sou eu ou esta gente está maluca? Imoralidade? Como? Quando? Onde?


Mas parece que, graças a Deus, há mais gente que reza pela mesma cartilha que eu. Vejam o que li no Estado de São Paulo: "Em levantamento feito logo após a entrada das denúncias contra o Devassa no Conar, no fim da semana passada, a empresa especializada em monitoramento de mídias sociais, Direct Performance, registrou que, 80% das mensagens postadas nas mídias sociais como o Twitter, mencionavam o caso. E, melhor para a Devassa, de forma positiva para a empresa. Críticas mesmo, só à garota-propaganda Paris Hilton."

O Grupo Schincariol, detentor da marca Devassa, defende-se e argumenta que o anúncio "não ofende em nenhum aspecto qualquer norma ou orientação" do CONAR. Na nota divulgada, a empresa diz que "acata a decisão e já trabalha na defesa do caso".

Ontem a noite a marca já estava no ar com uma nova campanha em que explica que a Paris Hilton foi "obrigada a sair do ar", mas que está na Internet para quem quiser ver. Em seu lugar a Schincariol brinca com um novo filme em que seu logo aparece censurado com uma tarja preta - bastante espirituoso! Gostei.


É isso, gente!
E amanhã tem mais!